terça-feira, 27 de novembro de 2012

UM BREVÍSSIMO CONTO:

Maria e a névoa (por Isaias Martins)
            Cicio, cicio
Dizia ela ao vento
Como quem doma cavalos.
Isaias Martins
          Tudo acontecia dentro de si. Para ela tudo era bem concreto e palpável, mensurável e subjetivo em seu interior. Tal idiossincrasia paradoxal prendia-a nos palácios emocionais de sua alma e nos castelos de sua mente.
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          Mesmo sendo açoitada pelo sono, Maria deixou o seu quarto naquela noite quente de domingo. Quando chegou ao quintal não encontrou o que queria. Buscou refrigério olhando para cima, atraída pela claridade da lua nova.
          Havia névoa inoportuna na superfície lunar. Névoa que Maria nunca saberá do que é feita. No entanto, a mulher sabia que aquela névoa era sua inimiga e que não a deixaria encontrar a solução para o seu conflito íntimo.
          Maria enraiveceu-se. Apontou dedo firme para a lua, como quem acusa e ameaça. Gritou como uma louca, imprecações inéditas e antigas. Mas, com indiferença, a névoa insistia em encobrir aquela cena singela e aprazível, que poderia dissipar o tumulto dentro de Maria.
          Sim. A névoa encobria um tal Jorge e um dragão. Enfrentaram-se brutalmente há algum tempo, porém, agora brincavam de roda. Isto era maravilhosamente incrível e inspirador.
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          Logo, esta névoa agitava-se em rodopios celestiais, avolumava-se rapidamente e descia da lua até ao quintal de Maria em poucos segundos. Colocava-se ante a pequena e magra mulher, a poucos centímetros apenas. Isto a transtornava. Ela sempre pensava que morreria, mas nunca morre. Consegue apenas dizer Cicio, cicio.
         Sempre quando tinha lua nova Maria passava por isto: a mesma agonia, a mesma névoa na alma, a mesma raiva, a mesma frustração.
        A mulher completara no dia anterior 67 anos. O martírio se repetia há 51. Desde aquele acontecimento...
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         Ainda trêmula e molhada, Maria voltava para seu quarto. Colocava um travesseiro entre as pernas. Cobria-se completamente. Em posição fetal e dizendo Cicio, cicio, ficava até dormir.